A pesquisa, feita por amostragem, foi realizada ao longo de 2010 pela Pastoral do Povo de Rua (CNBB), em 222 dos 853 municípios de Minas Gerais, em todas as regiões, selecionados com base no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e na distância em relação às principais BRs e ferrovias que cortam o Estado. Foram pesquisados 158 municípios com até 50 mil habitantes; 57 municípios, com 50 a 300 mil habitantes e sete cidades com mais de 300 mil habitantes.
Foi identificada população em situação de rua em 186 dos 222 municípios pesquisados, o que corresponde a 83,6%. Nas cidades com mais de 50 mil habitantes, este percentual salta para 98,4%. Já nos municípios com cinco mil ou menos habitantes foi encontrada população de rua em 52,2%.
Foram ouvidos 792 moradores de rua, além de entidades e prefeituras. Entre os moradores de rua, 86,4% são do sexo masculino, 58% têm entre 26 e 45 anos e 62,5% são solteiros. Além disso, 94,2% dos entrevistados disseram ter família e/ou parentes e 92,9% possui algum grau de alfabetização e 81,3% tem algum tipo dependência química, sendo 67,5% relacionada ao tabaco, 68,7% ao álcool e 23,1% a drogas. Outro dado relevante é que quase 40% dos moradores de rua pesquisados disseram procurar trabalho.
“Com os dados colocados, a gente começa a procurar entender o fenômeno do morador de rua. Muitos devem ter ficado surpresos, sobretudo com o grau de alfabetização, com a questão dos sonhos que essas pessoas têm, com a forma de vínculo desses moradores. Essas pessoas são basicamente invisíveis, passamos por elas no dia a dia como se elas não existissem. Então, existe a necessidade de um olhar mais critico para esse conjunto de moradores. A pesquisa foi apenas uma amostragem, que vai nos levar a continuar desnudando essa situação, no sentido de propor políticas que possam ser efetivas para transformar a vida dessas pessoas”, destacou o secretário.
A pesquisa teve como objetivo levantar e analisar as condições socioeconômicas, políticas e culturais da população em situação de rua no Estado, bem como o funcionamento de equipamentos públicos e de entidades voltados para pessoas que vivem nessa condição.
Para a integrante da Pastoral do Povo de Rua e coordenadora da pesquisa, Cristina Bove, o preconceito é uma barreira a ser superada. “Primeiro temos que olhar o perfil que eles (moradores em situação de rua) têm. É um perfil no qual a gente vê que a população é masculina, tem profissão, tem escolaridade, que sonha e que quer superar essa situação de rua. É fundamental enxergarmos a população de rua com outro olhar, como cidadãos que precisam ser ajudados para superarem esse momento”, disse.
Violência
A falta de segurança é apontada como a maior dificuldade para 40,4%, num total de 775 pessoas que responderam a esse questionamento. Dificuldade para se alimentar, condições climáticas, falta de banheiro, falta de privacidade, discriminação, falta de moradia e de trabalho foram outros problemas apontados pelos entrevistados. Do total de pesquisados, 34% disseram estar nas ruas há mais de 10 anos. Já 87,9% garantiram não receber nenhum benefício social (bolsa família, INSS).
Para o professor da Universidade Federal de São João Del-Rei, Múcio Tosta, os resultados da pesquisa derrubam mitos. “Todos os dados derrubaram mitos, pois a população em situação de rua ou é invisível para a sociedade ou é confundida com outros tipos de situação social degradante, como a de mendicância. O que os dados revelam é que são cidadãos em uma condição de exclusão, de desvio social que buscam alternativas e querem ser reconhecidos”.
Relação com o poder público
A maioria dos moradores de rua (92,8%) é atendida pelas secretarias municipais de assistência social. Entre os principais serviços mantidos pelas prefeituras por meio de convênios estão: albergue ou casa de apoio, serviços de abrigamento, fornecimento de alimentação e serviços de saúde (como atendimento emergencial). Além disso, 65,7% dos municípios pesquisados disseram que operam políticas municipais voltadas para moradores de rua em rede.
Volta por cima
Superar a situação de rua e ser reintegrado à sociedade é difícil, mas não impossível. É o que garante o ex-morador de rua e atual coordenador do Movimento Nacional de População de Rua, Samuel Rodrigues, de 43 anos. Paranaense, ele conta que viveu 13 anos na rua, tendo percorrido estados como Mato Grosso, São Paulo e Espírito Santo. “A grande dificuldade é o conflito que a gente vive nas ruas: a questão da violência, de ter que morar nas calçadas ou em terrenos abandonados, dificuldade de encontrar trabalho, dificuldade de retomar o contato com a família. As dificuldades apresentadas na pesquisa eu vivi quase todas e foram grandes entraves no processo de saída da rua”, lembrou.
A realidade de Samuel começou a mudar há cinco anos, quando ele estava de passagem por Belo Horizonte. Encantado com o estádio Mineirão e com a Lagoa da Pampulha, resolveu ficar por algum tempo na Capital e encontrou apoio da Pastoral de Rua. Foi o que ele precisava. “Sempre tive sonhos, principalmente o sonho de sair da rua, de ter minha casa, de ter um trabalho. Não sou de Minas Gerais, sou do Paraná, mas foi em Minas, por meio de uma Organização Não governamental, que acabei encontrando a possibilidade de realizar esses sonhos”, contou Samuel, que hoje mora em Belo Horizonte e serve de exemplo.
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